ELEtrocardiograma

No meio da conversa, o rapaz disse que gosta da minha saboneteira. Era alta madrugada e o lugar ainda estava cheio. Tive que raciocinar sobre a frase lançada a esmo. Saboneteira? Como havíamos chegado nisso? Entendo, segundos depois, que o rapaz se refere ao meu osso abaixo do pescoço que liga a caixa toráxica ao braço, e não ao objeto que fica sobre as pias de banheiro. Agradeço o elogio, achando graça na peculiaridade do afago verbal. Porém, não consigo encontrar nada para dizer em troca. É estranho não ter como retribuir. Eu poderia dizer qualquer coisa, mas naquele instante decidi que só valeria a pena se eu realmente sentisse algo. Uma mentira inofensiva provocaria desdobramentos indesejados e, mais ainda, me fez pensar que eu estaria brincando com os sentimentos dele. Sei que bastaria um gesto meu para que o rapaz ganhasse segurança e se aproximasse, o que certamente o rapaz espera que aconteça.
Sorrio e pego o copo para beber um longo gole aguardando que o momento passe. Me intrometo no papo de uma amiga sentada do outro lado da mesa, palpito sobre um tópico sem importância, mas percebo que o rapaz ainda me olha a espera de algo. Desejo que uma garrafa se espatife no chão, que uma briga comece com o casal que está aos beijos mais adiante, qualquer fato que sirva como cortina de fumaça e me ajude a escapulir dali e a aparecer magicamente na minha casa. Um conselho, que sempre, sempre ouvi, se repete na minha mente: se não tiver nada de positivo para dizer, cale a boca. Eu tranco os lábios numa clara recusa em fazer com alguém o que não quero para mim. O rapaz é um cara bacana, sempre carinhoso e quando me encontra sorri de tal forma que parece falar que era só a mim que esperava.
Eu o olho nos olhos. Profundamente. Seguro sua mão, mas ainda não sei o que fazer. Me leia, gostaria de dizer, mas o rapaz não parece ser capaz de fazer isso, nem ali, nem comigo. O olhar dele escaneia lentamente o meu rosto, mede as feições e decora as minhas distâncias entre nariz, olhos e boca. Não me beije, eu pretendo dizer assim que perceber que o rapaz começa a se mover em minha direção. O tal fica parado a espera de um sorriso ou um aceno que o encoraje. Meu coração está para se retirar de cena aos gritos comigo. Me ajude, exijo que meu coração fique ali, deixe de ser a moradia do moço de olhos castanhos e volte a ser apenas um órgão oco e muscular que pulsa sangue. Tire esses quadros das paredes, faxine os ambientes, faça de novo os barulhos normais que possam ser facilmente entendidos pelos cardiologistas. Pare de pulsar saudade.
Ele...           Ele...         Ele...        Ele...            Ele...          Ele...         Ele... .
         Ele...         Ele...           Ele...         Ele...          Ele...          Ele... ... .


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